Sunday, January 08, 2006

Flops #1 - CD-i





Grandes Flops Multimedia #1 - CD-i

Inauguro aqui um ciclo dedicado a "flops" (falhanços) no multimedia de consumo.

Corria o ano de 1994 ou 1995, andava eu na ESCS e numa aula que penso de Marketing recebemos a visita do Eng. Pedro Reuter, então Director de Media da Philips portuguesa. Vinha esclarecer-nos sobre as benesses do CD-i vulgo CD Interactivo, formato inventado pela Philips.

Muita pouca gente se lembra hoje do CD-i. Era uma simples caixa do tamanho de um leitor VHS destinada para a nossa sala de estar e ser ligada à TV. Tecnicamente até era interessante. Além de ler os CD's de música podia-se ver fotos formato Photo-CD, fazer Karaoke e ainda disfrutar de jogos interactivos. Igualmente alguns modelos corriam Video-CD's, espécie de DVD primitivo, muito popular na Ásia mas que aqui sempre foram uma raridade e ignorados.

Nesse tempo eu ainda nem tinha PC e o CD-ROM surgia no mercado timidamente com leitores a antigos 30 contos. Eram lentos na performance e sem ser profissionalmente não havia ainda gravadores CD-ROM. Também os jogos para o formato PC-CD ROM ainda não estavam maduros e precisavam de ser aperfeiçoados. Mas estava já convicto que mais rápidamente o CD-ROM iria ter sucesso do que o avantajado "tudo-em-um" CD-i. Não via o CD-i como substituto do VHS porque até não era possível gravar neles. E os Video-CD tal como os Laserdisc nunca cativaram as massas por cá. Tecnicamente os Video-CD's até tinham menos resolução do que o VHS (se bem que não se degradavam). E muito menos via o CD-i como fabulosa máquina de jogos porque cobiçava era jogar num computador. O CD-ROM parecia algo muito prometedor e revolucionário para o PC e o tempo veio a confirmar isso.

Por outro lado o CD-i parecia poder ter tudo para iniciar uma revolução na sala de estar mas a verdade é que interessou a muita pouca gente. Não foi por falta de promoção que falhou. Também não foi por incapacidade técnica ou falta de atributos. Nem por falta de títulos vídeo apesar de ficar muito aquém dos do catálogo VHS. Igualmente havia produtos didáticos e jogos suficientes. O preço dos leitores apesar de não ser barato era aceitável para algo que até fazia bastante. Custavam uns 80 contos e que era quase o mesmo que os leitores DVD custavam quando surgiram e esses até tinham menos funcionalidades que um leitor CD-i. O formato falhou porque simplesmente porque não despertou o interesse e desejo pois ninguém tinha a utopia de usar a sala de estar para tais coisas "multimedia" em família. A Philips quando se apercebeu que ninguém queria um centro multimédia começou a perceber que as pessoas estavam era mais interessadas em jogos e mudou a estratégia de promoção. Igualmente levou o CD-i ao PC mediante uma placa de expansão e até o ligou à Internet. Mas já era tarde demais. Do mesmo modo do que eu que nessa altura eu sonhava com as potencialidades do CD-ROM num PC (sobretudo para jogos) muitos ignoraram o CD-i. Aliás depois surgiram também as desejadas consolas de 16bits como concorrentes e entre elas a best-seller Playstation.

O centro multimédia na Sala de Estar era um sonho da Philips à frente do seu tempo. Ainda hoje não surgiu nenhum electrodoméstico que seja verdadeiramente um centro multimédia na sala de estar mas as consolas e os vindouros media centers preparam-se para um dia o fazer. Já a Commodore tinha tentado impor o multimedia na sala de estar com o CDTV (um vulgar Commodore 500 camuflado sob a forma de leitor CD de mesa) e falhou iniciando o declínio da marca alemã. Há sonhos que só o são para quem os sonha e que contados não faz ninguém tem vontade de viver neles. O CD-i era um dos tais.



Voltando a esse dia, perante colegas pouco interessados no assunto, opus-me ao sonho de Pedro Reuter. Disse-lhe que nunca iria triunfar, que o futuro seria seguramente o CD-ROM por muito que apregoasse as maravilhas da sua máquina. Confiante ou antes para esconder um quase anunciado falhanço Pedro Reuter apostou comigo um almoço em que passado um ano seria o CD-i o vencedor da contenda. Curioso é que a Philips além do CD-i apostava também forte no CD-ROM que era um filho seu e da Sony. Mas o CD-i era um produto totalmente seu e as compensações em royalties do CD-i seriam então melhores se o formato vingasse. Por isso insistiu até ao fim no extinto formato. Era a luta com a Sony pela supremacia nas guerras de formatos. Até hoje ainda nunca voltei a encontrar o Sr. Reuter pelo que o almoço nunca mo foi oferecido. Também guardo ainda "religiosamente" da minha victória "moral" um CD-i de demonstração de um trecho da ópera AIDA em Dolby Surround oferecido numa feira. A ideia era que pegasse nele e fosse a um stand de electrodomésticos para o experimentar. Como muita gente não o fiz e coloquei-o na prateleira. Nunca tive a chance de o usar e parece que nunca terei oportunidade para tal. Se o Video-CD, SVCD e outros formatos já quase desaparecidos como o HDCD ainda podem ser apreciados em novas máquinas como o DVD o CD-i já está enterrado e mais que esquecido. Menos para para a Philips que perdeu mais uma batalha e investiu milhões no formato...

Links interessantes sobre CD-i
FAQ sobre CD-i
No Wikipédia
Site sobre CD-i

5 comments:

Nuno said...

Primeiro que tudo, parabéns pelo excelente blog :).
Também me lembro quando o cd-i surgiu, não sei se ficámos a perder ou a ganhar com o seu flop, mas uma coisa temos que admitir, quando foi lançado, estava um passo à frente de todos os seus concorrentes.
Deixo aqui as minhas sugestões para possíveis próximos artigos: Jaguar, Dreamcast, Sega Mega-CD.
Um abraço.

Nuno (Plano9)

Nuno said...

Primeiro que tudo, parabéns pelo excelente blog :).
Também me lembro quando o cd-i surgiu, não sei se ficámos a perder ou a ganhar com o seu flop, mas uma coisa temos que admitir, quando foi lançado, estava um passo à frente de todos os seus concorrentes.
Deixo aqui as minhas sugestões para possíveis próximos artigos: Jaguar, Dreamcast, Sega Mega-CD.
Um abraço.

Nuno (Plano9)

Nuno Barros said...

Obrigado, o teu blog também é bem bom e já está nos links do piu piu há algum tempo.
Quanto ás sugestões são boas mas eu neste ciclo vou somente falar de produtos mais multimedia e não exclusivamente lúdicos porque até acho que nesse campo já há bastantes artigos pela net.

Quanto ao cd-i ter sido um flop penso que era um fiasco que teria de ser. Talvez não tenhamos ganho nem perdido. Enquanto o cd-i falhava em compensação o PC, CD-ROM, DVD e as consolas evoluiram exponenciamente. Foi até bom não ficarmos já agarrados a um produto exclusivo duma marca. Quando estivermos receptivos penso que um verdadeiro centro multimédia na sala de estar vingará finalmente.

Pedro Reuter said...

Caro Nuno Barros, que blog interessante! Com respeito às razões do falhanço do CD-i, à parte do posicionamento da plataforma como "para toda a família", havia um problema de distribuição, pois a Philips tinha escolhido para este efeito a rede tradicional de Electrónica de Consumo, uma rede particularmente inapta naquela época a promover software de entretenimento. A Sony aprendeu a lição e criou uma ditribuição especializada para a PSX. No entanto, tinham-se vendido 15.000 unidades do CD-i em Portugal até fim de 93, seja ano e meio após seu lançamento, sensivelmente as vendas de PSX no seu primeiro ano.
Quanto àquele almoço, o que é prometido é devido.

Nuno Barros said...

Caro Eng.
é bom ver feedback seu aqui no "Piu Piu". Obrigado pelo elogio. :)